Upcycling na cosmética: quando o descarte vira ativo

Upcycling na cosmética: quando o descarte vira ativo

Nasci e cresci em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul — cidade do vinho, cidade da uva, cidade de gente que conhece o cheiro de safra, e foi nes.e cenário que o upcycling começou a entrar na minha vida.

Meu pai tinha uma vinícola, e desde pequena eu circulava por aquele espaço com a familiaridade de quem cresceu entre barricas e maquinário. E uma coisa sempre me chamou atenção: depois da prensagem, sobravam montanhas de cascas e sementes de uva. Ninguém sabia muito bem o que fazer com aquilo. Era o bagaço. O que não prestava. O descarte.

Aquela imagem ficou guardada em algum lugar da minha memória — sem que eu soubesse ainda o que ia fazer com ela.

Anos depois, já na faculdade de farmácia, me deparei com uma febre científica em torno do resveratrol. Pesquisadores do mundo inteiro corriam atrás desse polifenol presente na casca da uva, com propriedades antioxidantes impressionantes e estudos promissores em longevidade celular. E foi aí que a ficha caiu de vez: aquilo que eu via sendo varrido para o canto na vinícola do meu pai era exatamente o que a ciência estava tentando isolar e estudar.

Aquela montanha de bagaço não era descarte. Era ativo.

Assim, ssa percepção mudou a forma como eu olho para a formulação cosmética — e está na origem do que a Ziel entende por upcycling.

O que é upcycling?

Upcycling é transformar o que seria descartado em algo de valor igual ou superior ao material original. Não é reciclagem — que em geral simplifica o material. É enxergar potencial onde a cadeia produtiva enxerga sobra.

Na indústria agrícola e alimentícia, isso acontece em escala enorme todos os dias: cascas, sementes, borras, bagaços. A maior parte vai para aterros ou para queimar. Enquanto isso, o upcycling cosmético vai propor outra lógica — aproveitar o que já foi extraído, em vez de extrair algo novo.

Para mim, não foi uma tendência que descobri numa feira de cosméticos. Foi algo que comecei a buscar a partir do meu próprio entorno, da história que eu já carregava.

Os ingredientes de upcycling na Ziel

Dois ingredientes centrais da nossa formulação vêm diretamente dessa filosofia — e ambos têm uma ligação muito pessoal com a minha trajetória.

O óleo de uva — presente em todos os produtos da Ziel — é extraído das sementes de uva, subproduto da indústria vinícola. O mesmo subproduto que eu via acumulado no chão da vinícola do meu pai. Ele é: 

É um dos óleos mais completos que a cosmética tem disponível — e vem de algo que a indústria do vinho descarta.

extrato de café presente no sérum antimanchas e no creme densificador é obtido da borra residual do processo de produção — não de grãos cultivados para fins cosméticos. Ele retém cafeína e ácido clorogênico em concentrações ativas, com rastreabilidade de origem. Portanto, mais uma vez: o que sobra de uma cadeia vira protagonista em outra.

Esses ingredientes estão na fórmula porque são os melhores para o que precisam fazer. O fato de virem de resíduos não é compensação — é coerência.

Por que isso importa?

Não existe formulação com impacto zero. A indústria cosmética consome recursos naturais em escala — plantas cultivadas exclusivamente para extração, terras dedicadas, energia de processamento. Mas existe formulação mais consciente do impacto que gera.

Assim, o upcycling é uma das formas mais concretas de repensar essa lógica. Antes de cultivar algo novo, o que já foi cultivado e ainda não aproveitamos? Antes de extrair mais, o que o descarte de outra cadeia já nos oferece?

Para mim, essa pergunta começou na infância, olhando para o chão de uma vinícola em Bento Gonçalves. Por fim, hoje ela guia cada decisão de formulação na Ziel.

O que parecia sobra virou o centro de tudo.

Ana Koff é fundadora da Ziel, farmacêutica mestre e doutoranda em envelhecimento da pele.

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